XX versus XY
Somos seres condicionados desde a fecundação, já que comprovadamente existem traumas intra-uterinos. O que equivale dizer que, a partir do momento em que um casal (se for o caso) toma conhecimento da existência de um ser à caminho, inicia-se o processo de condicionamento, aliado à expectativa: menino ou menina?
Se menina, chamar-se-á “fulana”, diz a mãe. Se menino, será “beltrano”, arremeda o pai. E nosso batismo começa a ser programado…pelo menos o nome já está dado. Nossa personalidade passa a ser moldada antes que possamos ser apresentados à nossa essência, que já nasce morta.
Mamãe garante que se for menina “ há de gostar de sapatos tanto quanto ela”, ao que o papai contrapõe-se com “se for um garoto vai torcer pro Bahia e não se fala mais nisso”.
E assim a lista do que deveremos ser ou gostar vai crescendo:
Mamãe: - Vai adorar batons vermelhos!!!!
Papai: - Vai pegar todas as garotas que atravessarem seu caminho, hehehe!!!!!!
Mamãe: - Vai enlouquecer os garotos com sua beleza! Vai ser uma modelo rica e famosa.
Papai: - Além de gostosão, vai ser estudioso e bem sucedido!
E de repente…nascemos! Os conceitos estão estabelecidos e se bobearmos, até o namorado (a) já está escolhido (a):
Mamãe: - Veja, que gracinha, o Joãozinho (o filho da vizinha)gostou de você! Manda um beijinho pra ele, ahahah!
Papai: - Olha que coisa mais gostosinha essa garota (a filha do amigo) , filho! Ela quer ser sua namoradinha. Vai lá e dá um beijinho nela, hehehehe
E por aí vai…
Nós, meninas, crecemos de forma bastante descompromissada, podemos usar e abusar das cores, do rosa ao vermelho, do azul ao chumbo. Usamos vestidos , shorts ou calças compridas, blusinhas ou camisas… Brincamos de casinha, como também de polícia e ladão, ou de carrinhos e posto de gasolina. Ninguém acha que usar azul, vestir calças ou brincar com carrinhos possa afetar nossa feminilidade, que vai acontecendo naturalmente, salvo pequenas observações do tipo: - “Sente-se de pernas fechadas, você é uma mocinha elegante”. Ou “Não corra feito um moleque, tenha modos, você é uma garota linda”! E isso é tudo.
Não quero dizer com isso que meninas não possam ser homosexuais…claro que podem e muitas são, mas a maioria por fatores traumáticos que não estão relacionados com o descompromisso na sua criação. Só uma minoria o é por opção.
Já com os meninos, a coisa é bem diferente. Se demonstram interêsse por bonecas…ai! É um Deus nos acuda! Lá vem o pai feito um maluco explicar que “isso é coisa de menina”. Ele deve brincar com carrinhos, aviões, etc. Brincar de casinha? NUNCA!!!!! Tá maluco, garoto? Quer que eu enfarte??????? (diz o pai, rsrs).Camisas ou camisetas, por favor, de qualquer cor, excetuando-se rosa, lilás, violeta, amarelo-ouro, verde-limão, e por aí afora, a lista do que não pode vai tomando proporções gigantescas, afinal, são inúmeros os riscos que um menino corre até que se possa afirmar, com certeza, que ele é um autêntico XY, ou seja HOMEM, hetero!
E é aí que mora a minha dúvida…
A designação “HOMEM” é sinônimo de “condicionado”?
Condicionado a gostar só de mulher????
Condicionado a querer estar rodeado pelo sexo feminino?
Condicionado a achar outro homem feio?
Condicionado a andar e gesticular sem mexer-se muito, de forma a não dar margens a interpretações errôneas (afeminado)?
Condicionado a não ter atração por moda, tons pastéis, demonstrações de sensibilidade, manifestações de emoção, etc.?
Condicionado a acreditar que deve conquistar todo ser que use saias, saltos e requebre ao andar?
Condiconados a acreditar que seus corpos só podem sentir prazer no contato com uma mulher?
Então pergunto:
- Se ao menor descuido durante o crescimento e desenvolvimento de um menino quanto aos fatores acima expostos, ele poderá apresentar tendências femininas, então “hetero” é puro condicionamento? Invenção de uma sociedade caótica e descriminatória? Se deixarmos sua formação psíquica à mercê da natureza a maioria será inevitavelmente “homo” ou “bi” sexuais?
Fazendo um passeio de leve pela história, veremos que muitos dos antigos haréns eram compostos por jovens dos sexos feminino e masculino, sem que isso trouxesse nenhuma estranheza à baila, para seus respectivos donos.
Também entre alguns povos guerreiros, na antiguidade, ante a iminência de uma batalha, os mesmos copulavam entre si, em alguns templos pagãos, acreditando que isso fortalecia sua masculinidade e garantia maior poder de vitória à luta. Não conheço registros que comprovem que isso refletisse negativamente na sociedade da época quanto à masculinidade dos mesmos.
Mesmo em nossa sociedade tão machista e discriminatória, sabemos que os homens mantidos em presídios perdem essa conotação de heteros, servindo-se sexualmente uns dos outros e principalmente dos novos presos, no tão conhecido “batismo”.
Então, existe o hetero masculino, ou isso é uma invenção?
Ou uma condição?
Ou…?
Alguém responde? Please!!!!!!
Gi Neves