Aos loucos, que como eu, encontram motivos pra gostar de poesias!

Esta é minha colcha de retalhos...trechos de vida vividos, outras vezes imaginados, que vão sendo agregados aos poucos. Convido amigos e quem mais quiser, a bordar esses retalhos com suas idéias, pensamentos, poemas, críticas, etc.







Gi Neves



sexta-feira, 14 de março de 2014

DESPERTAR AGORA



DESPERTAR AGORA!


Enquanto aguardávamos na sinaleira pela abertura do sinal, seus olhos nos buscavam no intervalo entre os malabarismos que fazia com os côcos, em troca de um trocado, nessa troca absurda do pecado, onde já não mais identificamos quem é vítima e quem é culpado.

Pensei na busca insana dos famintos, revirando os lixos, lotados pelos desperdícios inconscientes (ou não) e desumanos dos que os produzem.

De repente, senti meus olhos marejados e um incômodo estranho, quase uma angústia, me apertava o peito, olhando os vidros fechados dos carros, outros sendo levantados rapidamente, enquanto o menino buscava pela esmola. Olhar agressivo, chutava o que encontrava no chão, cuspia palavras ásperas e ameaçadoras às janelas que o afastavam.

Esperávamos ansiosos pela abertura do sinal que nos livrasse do medo imposto pela frieza que o olhar do menino nos causava. Olhar de quem não tem mais nada a perder, o que quer que faça; de quem nada espera da vida, tampouco de graça. Olhar que denuncia a droga que o ameaça, refletida no corpo esquálido, coberto por farrapos.

E senti um medo estranho. Não do garoto, mas de mim...de nós. De todos que estavam ao meu lado, do tudo que temos, diante do quase nada que o garoto buscava.
Medo da minha impotência diante de uma sociedade corrupta, onde lotamos Templos de Orações, mas não damos soluções onde se grita por elas. Agimos como se tudo fosse absolutamente normal:
·        Levantar vidros que nos protejam;
·        Trancar portas que nos isolem dos perigos;
·        Nos acercarmos de câmeras e fios e outros milhares de recursos que garantam a nossa segurança.

Mas afinal, que segurança buscamos garantir?
·        A de continuarmos egoístas e maus, sem sermos incomodados?
·        De roubarmos do nosso próximo o direito ao sonho dos supérfluos que tanto nos saciam o paladar, o olfato, o olhar, o tato?
·        De nos recolhermos sossegados aos nossos lares, protegidos das chuvas, dos ventos, dos raios, enquanto tantos de nossos semelhantes buscam abrigo nas ruas, à mercê da sorte?
·        De podermos apreciar um prato quente e suculento, nos vários restaurantes agradáveis espalhados pela cidade, sem que olhares famintos nos incomodem a consciência?

E ainda reclamamos desses desafortunados que nos “incomodam o olhar”, com suas aglomerações pelas calçadas e praças, as mãos sempre estendidas em busca da esmola, seja em frente aos shoppings, restaurantes, sinaleiras ou estacionamentos nas ruas.

Enquanto isso, nossos cães seguem motorizados aos pet shops, de onde retornam lavados e perfumados, escovados e até engravatados, ou com laços, para saborear a ração equilibrada que os aguarda.

E Jesus dizia: - “Amai ao próximo como a ti mesmo”.

Enquanto essas reflexões atordoavam a minha cabeça e explodiam em minha consciência, senti uma vergonha enorme de mim mesma...de todos nós, insanos “burgueses”, ignorantes espirituais.
Senti vergonha das inúmeras preocupações que ousamos ter, com relação ao futuro, à velhice, aos filhos. Na verdade, todos seguros em seus lares, em seus trajes, protegidos por seus empregos ou aposentadorias, em seus acessos à médicos e hospitais, saciados em muitos dos seus desejos e vontades supérfluas. Às vezes nos dando ao “luxo” de nos sentirmos solitários.

Só Jesus conheceu a solidão da sociedade que ele amava e que lhe virou as costas, à cata de seus interesses.

Só quem tem as ruas como morada conhece a solidão dos rostos virados, dos olhares de repugnância, da altivez e prepotência dos que os veem como lixos.

Não sei por onde começarei, não faço a mínima ideia.
Estou imbuída, infelizmente, dos valores podres e hipócritas e dos condicionamentos impostos pela nossa sociedade. Sociedade esta que taxa como “delinquentes” os que são forçosamente excluídos dos sonhos e realizações de desejos.

Não vou mentir, pois também sinto medo de meus “irmãos” esquálidos que, por força do nosso egoísmo, corromperam-se através dos roubos, esvaziaram-se dos bons sentimentos, pelas leis trágicas e duras das ruas, onde “matar” é só um verbo, uma palavra.

De que forma, ou como, quando começarei a mudar esse jogo, independente da opinião dos que me cercam, não sei! Mas sei que começarei.
Meditando, dia a dia, no “como”; relembrando, dia a dia, o “porque”; determinando, dia a dia, o “quando”, pois somente assim sinto que poderei continuar com meus estudos, seguindo em minhas orações e cumprindo com a minha humanidade.

E Jesus anunciou: - “Longe da caridade não há salvação”!



Giana Neves
13/03/2014