Algumas vezes passei um final de semana em casa, sozinha. Seja porque a chuva era muita e desencorajava qualquer criatura a colocar os pés para fora; seja por estar em “contenção de despesas” (risos); seja por desencontro de programas e horários com amigos, ou mesmo por ter marcado com “alguém” e tomado um “bolo”, enfim… Mas nunca por haver decidido estar a sós comigo mesma. Porém, hoje foi assim.
Decidi isso ontem à noite; abafei todas as programações pensadas e resolvi que passaria 24 horas ao meu próprio dispor. Só eu e minha alma; eu e minha história, eu e minha psiquê; eu comigo mesma.
E venho neste momento contar que esta foi a melhor decisão já tomada em minha vida, o melhor programa que podia ter pensado fazer. Ainda bem que o fiz!
Bem, mas é melhor contar desde o início, como toda história deve ser contada. Então, era uma vez…(risos).
Despertei naturalmente as 9 horas, me espreguicei na cama, sentei na posição de Buda e fiz meu “Globo Azul” envolvendo toda a família, amigos, parentes, vizinhos e colegas. Exercitei meu Pranayam e, de pé, alinhei e energizei meus chackras principais. Puxei então uma aba da cortina e notei que o domingo estava calmo e claro. Estava inspirando esta manhã tranquila quando um desajustado emocional passou roncando os motores de seu possante, com o som no mais alto volume e quase carregou meus tímpanos com ele. Não fosse o alinhamento dos chackras eu juro que não seria responsável pelas minhas atitudes… mas deixemos isso pra lá.
Uma vez energizada, espreguiçada e desperta, dei início à minha sessão mistureba, ou seja, alongamento, exercícios de yoga e dança, tudo com muita música rolando solta e invadindo o espaço harmoniosamente. Aí , você que é um(a) neurótico(a) normal dirá: - Mas, alongamento e yoga COM DANÇA?????? E eu explico que, afinal, eu nunca fui adepta a seguir padrões, pelo menos não na íntegra e, assim sendo, enquanto estou concentrada em meus exercícios, o som muda de repente e explode a deliciosa cadência de Seu Jorge e eu, que não sou de ferro, me vejo obrigada a saudar essa maravilha. E nada melhor que dançando, concorda? ??
O importante é que, entre uma dança e outra pra saudar algum cantor específico, acabo cumprindo (finalmente)todo o ritual e já posso cair no banho. Ah…que delícia de ducha! Penso que toda criatura viva do planeta deveria ter direito a uma deliciosa ducha matinal.
Ainda enrolada na toalha faço meu café, pois sem ele eu não pego no tranco; amasso a banana com granola, meto chocolate amargo no café(hummmm), abençôo tudo e devoro com o mesmo prazer que uma criança diante de um sorvete de 3 bolas hipercolorido.
Resolvo que tá na hora de dar uma aparada na minha cabeleira negra. Nunca soube porque tinha tanta habilidade com cabelos e tesouras até minha primeira sessão de retorno a vidas passadas , onde descobri que, numa das minhas vidas anteriores, fui cabeleireira da corte e mulata. Então entendo também minha eterna briga contra o racismo e minha paixão pela música e pela culinária de influência negra: feijoada, caruru, vatapá, moquecas, pirões, caldos e farofas, tudo regado a muito samba, a cuica chorando, a viola tinindo e os pés envoltos no ritmo, seguindo o compasso da dança. Uma branquela metida a bêsta, ou melhor, a negra (risos).
Aparo as pontas e me vejo diante de meu próprio elogio: - Mulher…você é dezzzzzz!!!!!!
Mas, e agora…faço o que? Bem, se sou minha própria visita, nada mais de acordo que iniciar um papo comigo. Pergunto-me como vou indo e então paro para pensar a resposta verdadeira, não a automática. E decido que estou bem…bem humorada… relativamente saudável,após algumas lutas orgânicas…tranquila, apesar de tudo indicar “estado de sítio” (risos)…esperançosa, até por que isso evita possíveis crises e conflitos…sonhadora, pois se for pra não sonhar ia preferir estar morta, afinal, sou movida a sonhos, música, bençãos e sol. Esse quarteto representa a cruz que me sustenta.
Para continuar o papo com minha visitante (euzinha mesma), resolvo rever alguns álbuns de fotos com ela, em várias idades e situações diferentes. Ah, que idéia boa!Eu com os meninos…tão pequeninos…tão lindos! Bateu aquela saudade gostosa e as lágrimas logo brotaram, de alegria, claro.
E vê-los pequenos fez com que eu me lembrasse de mim pequena, da minhainfância, da minha criança tão silenciosa, tão escondida de tudo e de todos, constantemente no alto de alguma árvore onde descer era sempre uma novela (risos). Ou então trancada em meu quarto com minhas bonecas de papel e suas casas feitas de caixas de sapatos e seus móveis de caixas de fósforos vazias recobertas de papel adesivo imitando madeira. O mundo acontecia dentro de minha cabecinha, sem compartilhar com ninguém. Ir à escola era meu castigo, ou pelo menos era assim que eu via. A hora do recreio, meu martírio. Costumava enrolar o braço, um pé ou uma mão com talas de tecido fingindo estar machucada e assim ficar livre de brincar com as outras crianças. Só comigo, em meu mundo psíquico, emocional e totalmente particular. Uma criança que não soube ter infância. Adorava os animais, os insetos e demais espécies da natureza, menos o ser humano(risos). Gostava de ficar olhando a incansável tarefa das formigas…tocar nas joaninhas e vê-las virar uma bolinha…observar, de longe, as abelhas criarem seus favos de mel, as saídas e retornos à colméia…e de conversar com os cachorros e os gatos que eu trazia para casa.
Lembrei-me de minha adolescência tão conturbada. Não achava espaço em nenhum espaço e então, sem motivo aparente, eu contestava tudo. Até o dia em que me cansei de tanta contestação e me descobri adulta.
Lembrei a adoração que eu tinha (e tenho) por leitura. Tudo eu queria saber, tudo eu queria conhecer e parecia que a vida não teria tempo suficiente para eu aprender tudo que eu queria. Nada parecia conter a verdade que eu buscava. Tudo era tão temporário: valores, conceitos, etc. e isso me desesperava, em busca de maior solidez.
Sentia que minha vida pedia maior atenção para as coisas do espírito, mas não sabia o que eu buscava, nem onde encontrar. E comecei por onde a família havia me iniciado: o catolicismo. Um dia entrei no confessionário e fiquei calada. O padre disse: - Filha, pode dizer seus pecados. E eu respondi: - Ando achando que não os tenho. Levantei-me e fui embora e não voltei mais a me confessar, a não ser a mim mesma, na busca de correção para meus erros e na minha conversa diária com Deus.
Busquei respostas na Seichonoyê (sei que se escreve separado, mas quero assim). Lá aprendi a prática do pensamento positivo e a persistência. Mas era pouco…
Fui para a Messiânica. Bem, aprendi a fazer pequenas ikebanas(risos)…
De lá para o Zen Budismo foi um pulo. E ali fiquei mais tempo. Aprendi meditação, técnicas de concentração, o controle da mente e dos pensamentos. Mas a adoração à imagem de Buda me incomodava. E parti para a Gnose, onde aprendi a paciência, a humildade, a acalmar a mente através dos koans, a controlar o corpo e as emoções.
Mas foi na Eubiose que realmente me identifiquei. Aprendi as yogas mentais, a desenvolver clarividência e clariaudiência, a alinhar e energizar meus chackras, a absorver luz, ler e interpretar a aura, aprendi os rituais e mantras, a matemática divina, estudei o paganismo, depois praticamente todas as religiões e o cristianismo primitivo que originou a maioria, a história dos povos, tive acesso a livros antiquíssimos que originaram o estudo da numerologia, da astrologia e do tarot, aprendi sobre a dualidade do todo, inclusive da Divindade, enfim, aprendi verdades e mentiras e cumpri todos os graus de aprendizado. Saí de lá para o mundo com os conceitos atuais, que espero sejam modificados com o tempo, sinal de que estou evoluindo.
Bom, terminada a sessão “recordações”, esse passeio pelas minhas várias idades, achei por bem convidar-me para almoçar e decidi por uma comida típicamente alemã. Cozinhei batatas inteiras, ovos e salsichas. Passei as batatas no azeite com salsinhas e os ovos e salsichas na mostarda. Isso tudo acompanhado de uma bela e gelada cerveja preta. Hummmm…delicioso!
Estive cuidando muito bem de mim mesma. Lavei e guardei tudo, coloquei um CD de Klauss Schonning, com os sons da Terra e dei continuidade à leitura de “A Dama das Amêndoas” – Marina Fiorato, até as 18:30 horas. De repente bateu aquela saudade dos chás da tarde de minha mãe e sua amiga Lila, e pensei: Por que não?
Bati rapidamente um bolo de baunilha, recheei com maçãs, bananas e uvas passas, polvilhei açúcar e canela. Ficou divino!!!!
São 20:30 horas e estou saboreando esta delícia, acompanhada de uma bela xícara de chá de Anis. O perfume dos dois, acrescentado ao incenso de canela que deixei queimando impregnaram a casa de um aroma tão agradável que sinto como se os anjos estivessem presentes nesta visita à mim mesma. É…acho que vou propor-me esta visita mais vezes .
Existe uma egrégora harmônica em redor de tudo, um sorriso escondido na boca do tempo, uma alegria disfarçada na brisa trazida pelo vento e (não tenho certeza) acho que Deus me colocou em seu colo.
Então, nada melhor que aproveitar pra dormir e garantir bons sonhos!
Boa noite, Giana!
(Gi Neves)