Aos loucos, que como eu, encontram motivos pra gostar de poesias!

Esta é minha colcha de retalhos...trechos de vida vividos, outras vezes imaginados, que vão sendo agregados aos poucos. Convido amigos e quem mais quiser, a bordar esses retalhos com suas idéias, pensamentos, poemas, críticas, etc.







Gi Neves



segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SELVAGEM



Quero o barulho das ruas,



Quero a loucura da vida,



Quero carros, quero gente,



Quero ser essa avenida.







Quero os letreitos e os neons



Atrapalhando a vista.



Quero o susto da buzina,



Quero o andar apressado da menina.







Quero ônibus lotados,



Quero pontes, viadutos,



Quero o bêbado e o palhaço,



Quero risos amargurados.







Sou o cordeiro e a fera,



Sou mulher, sou animal,



Sou o bem e o mal,



Sou dual, sou alguém…







Perdida na cidade nua,



Na solidão das ruas.



Uma partícula qualquer,



Um ponto solto no espaço.







Sou um pingo



De giz



Escondido



Num traço.







(Gi Neves)

O JOGO


Que tal, vamos brincar?

Eu jogo meu coração, você tenta segurar.

Mas qual…que parceiro fui arranjar!

Eu arremesso certinho, ele deixa escapar.



Mesmo assim vamos brincando,

Sadicamente deixando que este pobre coração

Viva na doce esperança, desesperada ganância

De que um dia o arremesso vá direto às suas mãos.



(Gi Neves)

CONSOLO

Vai, pescador, iça tua vara!

Esquece o sol que te penetra a pele…

A tarde é curta e tua sorte depende

Do peixe que fisgue tua vara inerte.



Esquece a chuva e vai à luta,

Pois do teu trabalho

Provém a migalha que ilude a carne

E finge que alimenta.



Entrega ao Padroeiro o teu legado traiçoeiro

E goza a ventura de ter

Por companheira a Natureza

E por destino a aventura.



(Gi Neves)

DESESPERANÇA


Novamente vem o vento …



Levantando a poeira do passado,

Transtornando as fantasias,

Retrocedendo meus passos

Nessa louca investida.



Novamente vem o vento …



Separando os braços dos abraços,

Desunindo os lábios,

Provocando espasmos

Na corrida do tempo.



Novamente parte o vento …



Deixando um vazio i-m-e-n-s-o!

Pedaços de esperanças espalhados,

Palavras vãs levitando no espaço

Imensurável da vida.



(Gi Neves)

AMARGURA


Vontade enorme de partir…



Sumir, desaparecer, implodir.



Penetrar o nada e nunca mais sair.



Sumir…



Morrer…



Dormir…







Fazer finalmente parte do vazio



No qual sempre estive e a que sempre pertenci.



Não é depressão…não há covardia.



É a fusão do nada com o não.







É a isenção total de sentimentos.



É a perda imensurável de tempo.



É o drama do momento.



É a falta completa de argumento.







São desperdícios lançados ao vento…



É o desejo de ir desaparecendo aos poucos.



Desintegrando em sono lento.



Sumindo…



Voando…



Morrendo…







(Gi Neves)

domingo, 8 de agosto de 2010

A SÓS COMIGO

 
 

Algumas vezes passei um final de semana em casa, sozinha. Seja porque a chuva era muita e desencorajava qualquer criatura a colocar os pés para fora; seja por estar em “contenção de despesas” (risos); seja por desencontro de programas e horários com amigos, ou mesmo por ter marcado com “alguém” e tomado um “bolo”, enfim… Mas nunca por haver decidido estar a sós comigo mesma. Porém, hoje foi assim.




Decidi isso ontem à noite; abafei todas as programações pensadas e resolvi que passaria 24 horas ao meu próprio dispor. Só eu e minha alma; eu e minha história, eu e minha psiquê; eu comigo mesma.



E venho neste momento contar que esta foi a melhor decisão já tomada em minha vida, o melhor programa que podia ter pensado fazer. Ainda bem que o fiz!



Bem, mas é melhor contar desde o início, como toda história deve ser contada. Então, era uma vez…(risos).



Despertei naturalmente as 9 horas, me espreguicei na cama, sentei na posição de Buda e fiz meu “Globo Azul” envolvendo toda a família, amigos, parentes, vizinhos e colegas. Exercitei meu Pranayam e, de pé, alinhei e energizei meus chackras principais. Puxei então uma aba da cortina e notei que o domingo estava calmo e claro. Estava inspirando esta manhã tranquila quando um desajustado emocional passou roncando os motores de seu possante, com o som no mais alto volume e quase carregou meus tímpanos com ele. Não fosse o alinhamento dos chackras eu juro que não seria responsável pelas minhas atitudes… mas deixemos isso pra lá.



Uma vez energizada, espreguiçada e desperta, dei início à minha sessão mistureba, ou seja, alongamento, exercícios de yoga e dança, tudo com muita música rolando solta e invadindo o espaço harmoniosamente. Aí , você que é um(a) neurótico(a) normal dirá: - Mas, alongamento e yoga COM DANÇA?????? E eu explico que, afinal, eu nunca fui adepta a seguir padrões, pelo menos não na íntegra e, assim sendo, enquanto estou concentrada em meus exercícios, o som muda de repente e explode a deliciosa cadência de Seu Jorge e eu, que não sou de ferro, me vejo obrigada a saudar essa maravilha. E nada melhor que dançando, concorda? ??



O importante é que, entre uma dança e outra pra saudar algum cantor específico, acabo cumprindo (finalmente)todo o ritual e já posso cair no banho. Ah…que delícia de ducha! Penso que toda criatura viva do planeta deveria ter direito a uma deliciosa ducha matinal.



Ainda enrolada na toalha faço meu café, pois sem ele eu não pego no tranco; amasso a banana com granola, meto chocolate amargo no café(hummmm), abençôo tudo e devoro com o mesmo prazer que uma criança diante de um sorvete de 3 bolas hipercolorido.



Resolvo que tá na hora de dar uma aparada na minha cabeleira negra. Nunca soube porque tinha tanta habilidade com cabelos e tesouras até minha primeira sessão de retorno a vidas passadas , onde descobri que, numa das minhas vidas anteriores, fui cabeleireira da corte e mulata. Então entendo também minha eterna briga contra o racismo e minha paixão pela música e pela culinária de influência negra: feijoada, caruru, vatapá, moquecas, pirões, caldos e farofas, tudo regado a muito samba, a cuica chorando, a viola tinindo e os pés envoltos no ritmo, seguindo o compasso da dança. Uma branquela metida a bêsta, ou melhor, a negra (risos).



Aparo as pontas e me vejo diante de meu próprio elogio: - Mulher…você é dezzzzzz!!!!!!



Mas, e agora…faço o que? Bem, se sou minha própria visita, nada mais de acordo que iniciar um papo comigo. Pergunto-me como vou indo e então paro para pensar a resposta verdadeira, não a automática. E decido que estou bem…bem humorada… relativamente saudável,após algumas lutas orgânicas…tranquila, apesar de tudo indicar “estado de sítio” (risos)…esperançosa, até por que isso evita possíveis crises e conflitos…sonhadora, pois se for pra não sonhar ia preferir estar morta, afinal, sou movida a sonhos, música, bençãos e sol. Esse quarteto representa a cruz que me sustenta.



Para continuar o papo com minha visitante (euzinha mesma), resolvo rever alguns álbuns de fotos com ela, em várias idades e situações diferentes. Ah, que idéia boa!Eu com os meninos…tão pequeninos…tão lindos! Bateu aquela saudade gostosa e as lágrimas logo brotaram, de alegria, claro.



E vê-los pequenos fez com que eu me lembrasse de mim pequena, da minhainfância, da minha criança tão silenciosa, tão escondida de tudo e de todos, constantemente no alto de alguma árvore onde descer era sempre uma novela (risos). Ou então trancada em meu quarto com minhas bonecas de papel e suas casas feitas de caixas de sapatos e seus móveis de caixas de fósforos vazias recobertas de papel adesivo imitando madeira. O mundo acontecia dentro de minha cabecinha, sem compartilhar com ninguém. Ir à escola era meu castigo, ou pelo menos era assim que eu via. A hora do recreio, meu martírio. Costumava enrolar o braço, um pé ou uma mão com talas de tecido fingindo estar machucada e assim ficar livre de brincar com as outras crianças. Só comigo, em meu mundo psíquico, emocional e totalmente particular. Uma criança que não soube ter infância. Adorava os animais, os insetos e demais espécies da natureza, menos o ser humano(risos). Gostava de ficar olhando a incansável tarefa das formigas…tocar nas joaninhas e vê-las virar uma bolinha…observar, de longe, as abelhas criarem seus favos de mel, as saídas e retornos à colméia…e de conversar com os cachorros e os gatos que eu trazia para casa.



Lembrei-me de minha adolescência tão conturbada. Não achava espaço em nenhum espaço e então, sem motivo aparente, eu contestava tudo. Até o dia em que me cansei de tanta contestação e me descobri adulta.



Lembrei a adoração que eu tinha (e tenho) por leitura. Tudo eu queria saber, tudo eu queria conhecer e parecia que a vida não teria tempo suficiente para eu aprender tudo que eu queria. Nada parecia conter a verdade que eu buscava. Tudo era tão temporário: valores, conceitos, etc. e isso me desesperava, em busca de maior solidez.



Sentia que minha vida pedia maior atenção para as coisas do espírito, mas não sabia o que eu buscava, nem onde encontrar. E comecei por onde a família havia me iniciado: o catolicismo. Um dia entrei no confessionário e fiquei calada. O padre disse: - Filha, pode dizer seus pecados. E eu respondi: - Ando achando que não os tenho. Levantei-me e fui embora e não voltei mais a me confessar, a não ser a mim mesma, na busca de correção para meus erros e na minha conversa diária com Deus.



Busquei respostas na Seichonoyê (sei que se escreve separado, mas quero assim). Lá aprendi a prática do pensamento positivo e a persistência. Mas era pouco…



Fui para a Messiânica. Bem, aprendi a fazer pequenas ikebanas(risos)…



De lá para o Zen Budismo foi um pulo. E ali fiquei mais tempo. Aprendi meditação, técnicas de concentração, o controle da mente e dos pensamentos. Mas a adoração à imagem de Buda me incomodava. E parti para a Gnose, onde aprendi a paciência, a humildade, a acalmar a mente através dos koans, a controlar o corpo e as emoções.



Mas foi na Eubiose que realmente me identifiquei. Aprendi as yogas mentais, a desenvolver clarividência e clariaudiência, a alinhar e energizar meus chackras, a absorver luz, ler e interpretar a aura, aprendi os rituais e mantras, a matemática divina, estudei o paganismo, depois praticamente todas as religiões e o cristianismo primitivo que originou a maioria, a história dos povos, tive acesso a livros antiquíssimos que originaram o estudo da numerologia, da astrologia e do tarot, aprendi sobre a dualidade do todo, inclusive da Divindade, enfim, aprendi verdades e mentiras e cumpri todos os graus de aprendizado. Saí de lá para o mundo com os conceitos atuais, que espero sejam modificados com o tempo, sinal de que estou evoluindo.



Bom, terminada a sessão “recordações”, esse passeio pelas minhas várias idades, achei por bem convidar-me para almoçar e decidi por uma comida típicamente alemã. Cozinhei batatas inteiras, ovos e salsichas. Passei as batatas no azeite com salsinhas e os ovos e salsichas na mostarda. Isso tudo acompanhado de uma bela e gelada cerveja preta. Hummmm…delicioso!



Estive cuidando muito bem de mim mesma. Lavei e guardei tudo, coloquei um CD de Klauss Schonning, com os sons da Terra e dei continuidade à leitura de “A Dama das Amêndoas” – Marina Fiorato, até as 18:30 horas. De repente bateu aquela saudade dos chás da tarde de minha mãe e sua amiga Lila, e pensei: Por que não?



Bati rapidamente um bolo de baunilha, recheei com maçãs, bananas e uvas passas, polvilhei açúcar e canela. Ficou divino!!!!



São 20:30 horas e estou saboreando esta delícia, acompanhada de uma bela xícara de chá de Anis. O perfume dos dois, acrescentado ao incenso de canela que deixei queimando impregnaram a casa de um aroma tão agradável que sinto como se os anjos estivessem presentes nesta visita à mim mesma. É…acho que vou propor-me esta visita mais vezes .



Existe uma egrégora harmônica em redor de tudo, um sorriso escondido na boca do tempo, uma alegria disfarçada na brisa trazida pelo vento e (não tenho certeza) acho que Deus me colocou em seu colo.



Então, nada melhor que aproveitar pra dormir e garantir bons sonhos!



Boa noite, Giana!







(Gi Neves)