Aos loucos, que como eu, encontram motivos pra gostar de poesias!

Esta é minha colcha de retalhos...trechos de vida vividos, outras vezes imaginados, que vão sendo agregados aos poucos. Convido amigos e quem mais quiser, a bordar esses retalhos com suas idéias, pensamentos, poemas, críticas, etc.







Gi Neves



quarta-feira, 21 de março de 2012


BENDITOS OS PÁSSAROS!

Benditos os pássaros, as borboletas e tudo o mais que possa voar. Donos do espaço, isentos de leis, de normas, de autorizações de ir e vir. Simplesmente abrem suas asas ao sabor dos ventos, galgando as distâncias entre o aqui e o lá. Nada pode impedir essa liberdade, nada pode interferir nessa vontade de “estar”.

Malditos nós, os humanos, cujas asas metálicas estão contaminadas por  burocracias no “alçar” do vôo. Escravos das regras que nos permitem, ou não, partir ou ficar, entrar ou sair.
São as normas interferindo em nossa vontade, tornando imensas as distâncias banhadas nas lágrimas salgadas das saudades.

Parece que nosso lado animal esqueceu seu habitat natural. Já não nos  acreditamos parte integrante da natureza divina. Fazemos nossas próprias leis...e as fazemos mal!
Buscamos por segurança e nos embrenhamos cada dia mais nas garras do medo, nas grades que nos livram do “ar livre”, nas câmeras que vigiam nossos movimentos.

Esquecemos nossa intimidade com Deus e passamos a adorar o dinheiro. Não trabalhamos a terra para que ela nos dê de comer. Mas trabalhamos para pagar a terra que nos há de comer. Nela depositamos  os frutos de nossa ganância, os resultados da nossa ignorância.

Nada do que ali ficar poderá ser aproveitado no nosso “renascer”. Chegaremos à nova dimensão de mãos vazias. Nada do que criamos foi proveitoso; nem mesmo “felizes” soubemos ser. E onde andará Deus, se estivermos perdidos?

Como poderá nos “ver” se perdemos o contato? Como clamar pelos “espíritos de luz”, se nem orar lembramos mais como se faz? Por quanto tempo seremos “andarilhos” nas travessas e vielas da solidão da alma, até que, exaustos, fechemos nossos olhos e entreguemos nosso espírito ao alívio Redentor?

Robotizados pelos ideais do ter nos afastamos a cada minuto mais do ser. Ser feliz, ser simples, ser amável, ser justo, ser íntegro, ser amigo, ser conectado às leis espirituais, ser misericordioso, e todas as demais oportunidades de ser perderam a razão de ser.

Diante das necessidades primordiais (pelo menos assim a sociedade nos faz crer) do ter: ter dinheiro, ter alto salário (não importa a que preço), ter o apartamento com infra estrutura total de lazer (mesmo que você nem venha a usufruir disso), ter o carro do ano (com toda a insegurança que isso traz)...

Ter o sapato da moda (ainda que muito desconfortável), ter status social (e virar escrava da opinião alheia), ter  todas as especializações e mestrados e doutorados possíveis (mesmo que isso lhe tome todo o tempo de lazer com família, amigos e até consigo mesmo)..

Ter  como ir e vir pelo mundo inteiro (como se passear pelo seu país fosse sinônimo de pobreza), ter como se hospedar em hotéis repletos de estrelas (e deixar de curtir o pé descalço na terra, o short desbotado, a camiseta regata, a comidinha improvisada, num camping legal, gozando das delícias do contato com a natureza, fazendo novos amigos, enfim...);

Ter como frequentar a melhor academia (e viver a ansiedade da busca pelo corpo perfeito), ter  depressão (mais do que natural quando se vive uma vida nada natural), ter o melhor profissional como seu Analista (embora ele não possa promover a única coisa necessária: lavagem cerebral)...


E tantas outras necessidades de ter que vão aparecendo e nos isolando mais e mais da tão sonhada Felicidade, da tão almejada Liberdade, da tão aguardada Paz!
Benditos os pássaros, as borboletas e tudo o mais que possa voar!

“O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”
(trecho de Felicidade, de Lupicínio Rodrigues)

Gi Neves

21/03/2012